top of page

A Anatomia de Um Luto

  • 17 de out. de 2025
  • 5 min de leitura
  • POR C. S. LEWIS




Encontrei o livro

Não sei especificar o tempo que gastei à procura deste livro em Portugal. Tenho uma coleção de livros da mesma edição, contudo, este em específico não estava incluindo. Encontrá-lo a bom preço? Só no Brasil.


Até que, por motivos de trabalho, tive de ir a Lisboa ao Forúm Evangélico e lá encontrei o livro que tanto procurava! 


Tentei ao máximo conter o meu entusiasmo, já que estavam a decorrer palestras e as pessoas estavam atentas a tudo o que estava a ser dito por parte de Jim Memory, co-director do Lausanne Europa.


Esperei pelo momento mais indicado para o ler, pois não queria fazê-lo à pressa e nem por causa do Entrelinhas - embora tenha acabado por utilizá-lo para a gravação de um episódio com a Gabriele Sauthier (produz conteúdo para o Falei com Amor) - podes ouvir o episódio aqui.


Levei o livro para todo o lado. Sempre atenta para não me esquecer de uma caneta ou um marcador, pois não consigo ler livros sem marcar algo ou sem deixar a minha opinião como se de uma conversa com o autor se tratasse. 


Foi uma leitura simples. Quando digo simples, refiro-me ao facto de C. S. Lewis ter sido tão cru em descrever o seu luto que, pela primeira, vez eu não precisei voltar atrás para entender melhor o que ele queria dizer.


Agora que penso nisso, não sei se entendi bem por ser participante dessa dor ou se (realmente) as palavras me pareciam mais perceptíveis. Será que a dor do outro que já experimentei na pele me faz entender melhor? 


Talvez…


fotografia por Ana Margarida
fotografia por Ana Margarida

Mas vamos falar sobre o livro

É, sem dúvida, um livro escrito de um lugar de muita dor contado por um homem que perdeu o amor da sua vida - amor esse que nunca pensou encontrar. 


A forma carinhosa com que fala de Joy (a sua falecida mulher), demonstra o quanto lhe era especial e um presente enviado por Deus. Tudo isto porque Lewis sendo um académico pouco ou nada acreditava que iria encontrar alguém cujo cérebro fosse mais rápido e perspicaz que o seu. Joy era essa mulher.


É de tal forma cru nos seus pensamentos e sentimentos quanto à dor da perda que não tem medo de escrever tudo o que lhe vai por dentro. Pode soar estranho, ridículo ou até louco, mas a liberdade com que escreve o quanto lhe dói a ausência de Joy é da mesma força com que a amou.


Lewis não se poupa, numa primeira instância, em querer “deixar” Deus de fora da equação. Se é para ser cru nos seus sentimentos de modo a compreendê-los ou a apenas a lidar com os mesmos, notou-se uma resistência em deixar Deus participar.


Não o julguei, apenas o compreendi. Assim como compreendi que, ao passar das páginas que iam sendo lidas, Lewis não conseguiu permanecer com a ideia de que Deus teria de ficar de fora. 


Pelo contrário, como disse a Gabriele durante a gravação do episódio (parafraseando), o autor estava tão firme na sua relação com Deus e tão certo de quem Deus era que se tornou mais próximo para poder ser totalmente honesto sobre tudo o que pensava e que estava dentro da sua alma abatida.


desconhecido
desconhecido

O luto é parecido com o medo?

No primeiro capítulo, o autor dá-se conta que tanto o luto como o medo têm muito em comum. Pois tal como o medo pode causar em nós sensações que se propagam por todo o corpo, também o luto o faz.


Como disse Gabriele “é mente, é espírito, é o físico/fisiológico(...) um estado de ansiedade e vigilância que se parece muito quando você está com medo também”.


E eu não poderia discordar. 


O medo toma muitas formas, assim como o luto tem as suas vertentes. Enquanto podemos ter medo e sentimo-nos ansiosos pelo futuro, o luto também provoca a ansiedade de não se saber como vai ser possível viver sem a pessoa amada.


A insegurança de não saber como serão as coisas daqui para a frente pelo vazio que se carrega.


desconhecido
desconhecido

Não é o académico que escreve

Grandes obras já tinham sido escritas quando Lewis se sente à vontade para usar todas as palavras que conhecia para explanar a sua dor. Contudo, não é o académico que escreve, mas o viúvo.


É o ser humano que perdeu a sua companheira de vida, que agora teria de aprender a viver sem ela. 


Com receio que a sua querida Joy se tornasse uma mera imaginação. Mas como a Gabi também disse, enquanto éramos vulneráveis não apenas em discutir o livro: “o amor tem uma memória muito forte”.


desconhecido
desconhecido
Deus como um cirurgião

A dado momento, C. S. Lewis associa Deus à imagem de um cirurgião. 


No momento de dor é natural que o ser humano lute com todas as suas forças para não lidar com a mesma. Mas o autor traz-nos a reflexão de que não faz sentido lutarmos com quem nos pode aliviá-la.


Lewis escreve: “Quanto mais gentil e cuidadoso ele for, mais inexoravelmente continuará cortando. Se ele ceder às suas súplicas, se parar antes que a operação seja concluída, toda a dor até àquele ponto terá sido inútil.” - Anatomia de Um Luto, por C. S. Lewis, página 71.


É o chamado mal necessário!


Isso não significa que Deus conspira contra nós, mas como a vida também engloba estes dissabores, Deus também não vai desperdiçar a oportunidade de se mostrar verdadeiro e presente. Mesmo quando nos sentimos cada vez mais sós e abandonados.


desconhecido
desconhecido

Por fim…

No último capítulo, na página 90, Lewis escreve: “Louvor é o modo de amor que sempre contém algum elemento de alegria. Louvor na devida ordem: a ele como o presenteador, a ela como o presente.”.


Com o autor eu aprimorei ainda mais a ideia de que já tinha de que é possível e necessário honrar quem já partiu. 


Quando o digo, refiro-me ao facto de que esta leitura foi fulcral para que me sentisse mais livre para fazê-lo.


A minha mãe, que perdi muito cedo, foi a demonstração mais real e palpável que tive de que Deus me queria. A maior prova de que a alegria e o contentamento são duas das melhores armas que existem para se lutar e sobreviver.


Ainda que tenha partido muito cedo e ainda que me faça muita falta, não deixo de ser grata pela mãe que tive. Muito pelo contrário, à medida que os anos passam mais grata eu me torno e mais louvores eu rendo a Ele pela oportunidade que tive de conhecer a Isabel neste lado da eternidade.


No fundo é isso… sou grata porque deste lado da eternidade eu conheci o Senhor, o meu Pai. Assim como deste lado da eternidade eu conheci a Isabel, a minha querida mãe.











Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Comentários (29)

Elsa
02 de fev.

Maravilhosa narrativa.

Muito bom, minha flor linda.

Curtir

Adriana
30 de set. de 2025

Excelente como sempre!

Curtir

Fabiola
05 de ago. de 2025

Falar é uma das expressões e experiências mais incríveis que temos. Mas como falastes, precisamos cuidar com os nosso impulsos, esses podem levantar e podem destruir. Obrigada por essa reflexão.

Curtir

Convidado:
22 de out. de 2024

Vou dormir com o coração aquecido com esse texto ❤️

Curtir

Convidado:
27 de ago. de 2024

“… nos quer levar a nível de segurança tão grande onde vamos nos sentir livres para deixar toda a dor, todos cacos, nas suas mãos“ 🤯

Curtir

Convidado:
27 de ago. de 2024

A forma como abraçaste este viagem e te entregaste, e a coragem que demonstraste, é algo que me deixa sempre sem palavras.

Curtir

Convidado:
26 de out. de 2023

Gracias por llevarnos hasta allá! Hasta se me apretó la guata.

Curtir
amargaridablog
amargaridablog
Administrador
14 de nov. de 2023
Respondendo a

Hehe como nosotros decimos acá: Ora essa! :)

Curtir

Convidado:
18 de out. de 2023

Como amei ler seu texto e poder relembrar os detalhes dessa viagem tão intensa e incrível que fizemos. Obrigada ❤️😇

Curtir
amargaridablog
amargaridablog
Administrador
14 de nov. de 2023
Respondendo a

Seria bom voltar, né? Pode ser que um dia tenhamos boas notícias e seja possível voltar com tudo em paz :)

Curtir

Armando Marcos
Armando Marcos
18 de jul. de 2023

Muito bom seu texto, e compartilho sua dor pois tive um pai semelhante, e essa questão se estar sempre em alerta até hoje vem comigo

Curtir

Convidado:
18 de jul. de 2023

Wow! Que corazón enorme Dios te dió.

Curtir
amargaridablog
amargaridablog
Administrador
14 de nov. de 2023
Respondendo a

Sin ninguna duda! :) gracias por leer el texto.

Curtir

Entra em contacto

© 2026 A Margarida Blog, All rights reserved.

bottom of page