Patti Smith
- amargaridablog

- 22 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 6 de ago. de 2025
TUDO O QUE APRENDI
Cresci a ouvir algumas músicas da Patti Smith na rádio, mas nunca me aprofundei muito sobre a sua arte e nem sobre a pessoa por trás da artista. Aliás, creio que seja impossível dividir a artista da pessoa.
Sou das que acredita que o artista vai sempre doar um pouco (senão tudo) de si, para que aquilo que produz artisticamente seja compreendido de forma plena.
O primeiro acesso que tive ao trabalho da Patti foi a partir de algumas músicas que fizeram sucesso nos finais dos anos 70 (início dos anos 80). Mas nunca me tinha debruçado para mais nada, até que em 2020, uma amiga minha (a Adriana), ofereceu-me o livro M Train.

Por causa de leituras pendentes, a minha entrada para a rádio e a urgência de ler outros livros por causa do trabalho, deixei o livro na estante.
Até que, no início do ano, já olhava para a minha estante com vergonha de tanta leitura postergada.
Por isso, para me incentivar a ler e para que houvesse bom conteúdo para o Entrelinhas, apresentei a Patti Smith como sugestão de episódio. Inclusive, até já tinha a convidada perfeita para gravar (a Iara).
Quando comecei a ler M Train pude perceber como a Patti sempre foi muito livre e desprovida de qualquer receio de juntar a poesia com o rock. Atrevo-me a dizer que ela marcou o casamento perfeito!
Embora eu ainda só tenha ouvido alguns dos seus albúns - sendo Wave (1979) o meu preferido - e só tenha lido este livro, a verdade é que consigo perceber que a artista não se recusa à profundidade e não demonstra qualquer medo em mergulhar em memórias - mesmo quando são dolorosas.
Penso que poderia resumir a Patti a: profundidade, memórias, poesia, rock, fotografia e café. Mas quem sou eu para fazer uma coisa dessas, não é?
Artistas são muito mais do que aquilo que nos mostram e vemos deles - ou queremos ver. Talvez seja por essa mesma razão que gosto tanto deles, ao mesmo tempo que, por vezes, não os suporto.
Criam em mim uma espécie de desconfiança por não saber se aquela arte transmite quem são ou se é com ela que se escondem. Bom, mas por aqui termino os meus devaneios.

Voltemos à Patti!
Até agora ainda só li M Train e já posso afirmar que a caixa de pandora foi aberta e vou ler os outros.
Na lista já tenho: Apenas Miúdos - onde está a essência de persistência, juventude e rock ‘n’ roll que viveu ao lado do fotógrafo Robert Mapplethorpe; e, Um Livro dos Dias - a compilação de fotografias que demonstra a migração que fez de usar câmara e polaroide, para o telemóvel.
Pois é, até a Patti se rendeu às redes! Mas fez do seu feed de instagram um memorial do que vê e de quem admira.
Eu pude perceber algo: A Patti não deixa a sua escrita sem as fotografias que comprovam o que ela viu, viveu ou recordou. Nem consegue disassociar cada viagem a um livro ou escritor. Aliás, muitas das suas viagens eram feitas por causa do amor aos escritores.
Desta forma, posso confessar abertamente que esta é uma das razões que quero continuar a estar atenta ao que ela faz: há sempre indicação de leitura.
A Patti não nos aborrece! Com a sua forma de estar e ver o mundo, conseguimos ter acesso a lugares que nunca estivemos antes. Conseguimos descobrir autores que nunca lemos e, assim, ir aumentando a bagagem.
Pois ela não se limita apenas ao conhecimento, mas à forma como aprende um pouco com todos e aplica o que é bom.
Quando menciono isto, não posso esconder que o que mais admiro nela é a forma simples de viver. Basta-lhe a mesma rotina, o mesmo café, a mesma mesa e o mesmo pequeno-almoço: pão escuro com azeite e café.
Até me deixei rir - e fiquei aliviada - quando a um dado momento eu lia que quando chegou ao seu café de eleição (na altura o Café ‘Ino, em Greenwich Village, Nova Iorque, que descreve no livro), a sua mesa estava ocupada. E isso desconcertou-a.
Poderia ter-se ido embora? Poderia! Mas preferiu ficar sentada na casa-de-banho, com a porta semi-aberta para caso alguém precisasse usar e esperou.
Pelo quê? Esperou que quem lá estava sentado… saísse. E assim que o seu lugar, a sua mesa, a sua cadeira, estavam livres, limpou tudo e sentou-se tranquilamente.

Eu ri muito quando cheguei a esta parte do livro porque me revi. Quantas não foram as vezes em que, simplesmente, saí do café porque o “meu lugar” estava ocupado. Saía com a ideia de: amanhã pode ser que tenha mais sorte.
Engraçado como nos afeiçoamos a lugares que nem têm o nosso nome. Costumava rir-me da minha avó que sempre que vai à igreja tem sempre a sua fileira preferida para se sentar. Hoje dou por mim a fazer o mesmo.
Tenho o meu café de eleição para trabalhar, a mesa perfeita para ficar, a mesma sandes com pão de sementes e o abatanado, a mesma fila de cinema para me sentar, o mesmo local do shopping para estacionar…
Acho que a vida é mais feita de rotinas do que de novidades. E que tranquilidade que isso é…
Agora, sem querer fugir muito o livro M Train, posso notar que temos uma Patti que recorda as suas mais bonitas memórias com o seu falecido marido (Fred Sonic Smith).
Ela escreve este livro já viúva. E nota-se que é muito sensível às suas memórias. Não apenas por causa da saudade que tem do falecido marido, mas também do seu irmão, do seu pai, dos lugares que visitou, etc.
No início há uma explicação de que, num sonho, ela ouve de um cowboy de que não é tão simples escrever sobre nada. E dá a indicação de que o livro é sobre isso mesmo…
Mas, na verdade, Patti mostra que falar sobre o que se viveu é o nada mais cheio de tudo o que existe. Porque viver não é tão simples, e menos simples é escrever sobre o que se viveu.
E já diz o povo antigo: Recordar é Viver.
As memórias são o que nos possibilita o avanço e o não abrir-mão do que é essencial e verdadeiro. A partir das mesmas temos uma consciência do que não precisa mais voltar e aprender a viver com o que já não volta. Assim como a apreciar mais o presente.

Desde que mergulhei mais no mundo dela, pesquisei tanta coisa que acabei por me deparar que ela vinha de uma família de Testemunhas de Jeová - que abandonou muito nova e não quis ter mais nada a ver com o Cristianismo.
Mas é interessante que ela mesma chegou a dizer que já não era a mesma Patti de há anos atrás e que as pessoas não poderiam mais vê-la da mesma forma.
Inclusive, ela mesma chegou a dizer à jornalista Isabel Lucas, do jornal Público, que me gerou maior ligação com ela por causa da compaixão que me causou: «Sempre admirei Jesus, li as Escrituras, admiro os ensinamentos, mas quando tive uma religião era jovem, e a ideia de Jesus como a de alguém a carregar um enorme peso, a ideia de que tudo o que fizéssemos de mau pesaria sobre os seus ombros, fazia-me sentir claustrofóbica».
E foi aqui que eu passei a não apenas admirar a artista, mas a ter compaixão dela por perceber que existem muitos mais com a mesma visão.
No mundo em que vivemos - que sempre foi assim - é-nos difícil aceitar um amor que nos é dado incondicionalmente.
Somos ensinados que tudo tem um custo, tudo tem uma razão de ser e se não fazemos para isso, então não merecemos. Inclusive, o perdão. A verdadeira paz de saber que está tudo bem.
Por isso o sacrifício de Jesus na cruz a faz sentir tão claustrofóbica. No fundo, ela sente aquilo que já sentimos: culpa.
Mas, enquanto alguns de nós nos rendemos ao amor de Deus e abandonamos a culpa, outros agarram-se a ela como uma tábua de salvação, ignorando o barco que ali está para as resgatar.
Com isto, passei a compreender melhor a Patti. Comecei a olhar para as pessoas de forma diferente - as que não crêem em Cristo. Alguma visão elas têm d’Ele.
Só precisam de alguém que seja como Filipe que explicou as escrituras ao oficial etíope, que as tinha na mão, mas não as compreendia (Actos 8:26-40).
As pessoas querem ver, querem compreender, elas querem. Mas, na maioria das vezes, nós não estamos onde elas estão. Nós somos indiferentes.
E, no meio do mundo da Patti, foi o que de mais importante que aprendi.




Maravilhosa narrativa.
Muito bom, minha flor linda.
Excelente como sempre!
Falar é uma das expressões e experiências mais incríveis que temos. Mas como falastes, precisamos cuidar com os nosso impulsos, esses podem levantar e podem destruir. Obrigada por essa reflexão.
Vou dormir com o coração aquecido com esse texto ❤️
“… nos quer levar a nível de segurança tão grande onde vamos nos sentir livres para deixar toda a dor, todos cacos, nas suas mãos“ 🤯
A forma como abraçaste este viagem e te entregaste, e a coragem que demonstraste, é algo que me deixa sempre sem palavras.
Gracias por llevarnos hasta allá! Hasta se me apretó la guata.
Como amei ler seu texto e poder relembrar os detalhes dessa viagem tão intensa e incrível que fizemos. Obrigada ❤️😇
Muito bom seu texto, e compartilho sua dor pois tive um pai semelhante, e essa questão se estar sempre em alerta até hoje vem comigo
Wow! Que corazón enorme Dios te dió.