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Crescer no meio da violência

  • 18 de jul. de 2023
  • 6 min de leitura

Desde que me entendo por gente que sabia que o ambiente da minha casa não era o melhor. Não precisei que me explicassem o que era violência porque eu a via com os meus próprios olhos.


Lembro-me de estar sempre em estado de alerta e de não entender porque os momentos de tranquilidade não perduravam. Havia sempre um motivo para começar uma discussão que acabaria com choro de duas mulheres estendidas no chão.


O meu avô copiou tudo o que o seu pai lhe tinha ensinado. E à minha avó não lhe faltaram avisos de que a vida dela seria um autêntico inferno se ela não se afastasse do meu avô enquanto era tempo.



A minha avó relatou-me que a fase de namoro deles sempre foi tranquila. Não havia um único sinal de que ele fosse violento.


Contudo, sempre que possível a minha bisavó - mãe do meu avô - mostrava as marcas que tinha no seu corpo advertindo a minha avó que ele seria pior que o pai e para que ela fugisse do relacionamento enquanto podia.


Sim, a própria mãe do meu avô falou contra o filho. Ela sofria na pele aquilo pelo qual a família do meu avô era conhecida: homens violentos e austeros.


Mesmo assim, a minha avó tomou a decisão de se casar com ele. Penso que acreditava que ele nunca faria nada contra ela. Mas, não foi preciso nem um mês de casados para começar a primeira cena de pancada.


Com isto, vieram filhos, netas… e é aqui que eu apareço.


Cheguei a uma família onde o pai não havia e a violência parecia ser o prato do dia. Eram raros os momentos em que o meu avô andava calmo. Lembro-me, inclusive, de todos na casa evitarem tudo o que o poderia fazer com que ficasse alterado.


Um constante estado de alerta e de medo. Nunca sabíamos como o seu humor poderia mudar e nem as consequências que viriam disso.


Tal como mencionei mais acima, o meu avô aprendeu tudo o que viu do pai. Embora estejamos sempre sujeitos a repercutir o que vimos, a verdade é que a violência é uma escolha. E, quando cometida, o agressor deve ser responsabilizado.


Então, por causa da sua má escolha, eu vivi sempre com medo e rodeada de gritos. Vi cenas absurdas e assustadoras. Cenas que nenhuma criança ou adulta deveria estar exposto.


Foram cenas tão assustadoras e tão marcantes que até hoje apenas consegui falar com Deus, com duas amigas muito próximas e com a psicóloga.


Eu vi demasiado.


Algumas coisas foram tão traumatizantes que eu apenas tenho relances de imagens. Já outras, são bem nítidas. E, desde que descobri que o nosso cérebro não tem capacidade de processar traumas, entendi porque o corpo dá os seus sinais.


A minha avó conta-me que, apenas com 4 anos, eu ia a correr morder nos calcanhares do meu avô para que eu parasse com o que estava a fazer. Que ficava no meio das duas - a minha mãe e a minha avó, caídas no chão - a tentar levantá-las.


A memória mais vívida que tenho é de um momento em que eu gritei por ajuda e eu vi as pessoas irem embora. Assim como vi aqueles que “não queriam se meter em assuntos de família”.


Dado a tudo isto e muito mais, hoje eu consigo entender o facto de ter sido uma criança que tinha medo de perder a minha mãe. Assim como entendo melhor o tipo de adolescente conturbada que era.


Já mencionei noutro texto desta série “Crescer”, que parecia tal e qual um bicho do mato. Para me defender, atacava.


Era áspera, respondona, enfrentava qualquer pessoa. Principalmente, quando eram figuras de autoridade masculinas - os professores sofriam comigo.


Muito rebelde, muito indisciplinada, muito ferida.



Aos 19 anos fico a saber que o meu avô ficara doente. A essa altura, por ordem do tribunal, ele já não morava na nossa cidade. Não podia se aproximar de nós num raio de 500m - por isso decidiu deixar a cidade.


Apesar da maneira violenta de viver a vida, se há coisa que ele sempre teve foi o socorro da família. Nenhum filho ou até mesmo a esposa lhe virou as costas. E nesse momento não foi diferente.


O meu tio conseguiu que ele fosse transportado para o hospital mais próximo da nossa cidade. Soube que o seu estado de saúde estava deplorável. Então, foi conversado de que eu deveria ir vê-lo.


Eu não queria, fui de contra vontade. Contudo, aproximando-me mais do hospital entendi que aquele momento seria importante.


Quando cheguei ao quarto onde ele estava, encontrei-o deitado na cama de hospital com a bata, de fralda e máscara de oxigénio. Amarrado à cama, os enfermeiros não davam conta da força dele.


Até hoje é uma imagem que mexe comigo. Um homem tão alto, tão forte. Sempre com o lema: “eu quero, eu posso, eu mando”. Completamente fraco numa cama de hospital.


Quando o vi naquele estado, pensei: “De que lhe valeu tanta brutalidade?”.

Aproximei-me mais da cama de modo a que ele me conseguisse ver. Os olhos dele encheram-se logo de lágrimas assim que me viu. E eu não contive as minhas.


Deu-se conta que tamanha brutalidade que vigorou durante a vida não lhe serviu de nada. Era humano e, como tal, chegou o momento em que as suas forças tiveram um fim.


Mal conseguia falar, faltava-lhe o ar. Mas, com as mãos fazia-me sinais. E, enquanto ali estava, perguntava se ele estava a ser bem tratado.


Quando senti que era a altura de ir embora, olhei para ele e disse que estava tudo bem. Que tudo o que tinha acontecido estava no passado e que estava perdoado. Inclusive, também lhe perdão caso tivesse sido uma má neta.


As lágrimas correram-lhe de novo pela cara. Correram pelas minhas também. Só Deus sabe o quanto eu queria que as coisas tivessem sido diferentes.


Em dias diferentes, toda a família teve a oportunidade de o visitar. Todos o perdoaram. A minha avó foi a última a vê-lo e a conversar com ele. Parecia que lhe faltava o perdão a quem ele mais maltratou para, então, falecer.


E assim foi. Não sei que final teve o meu avô. Mas, ele conhecia a Palavra e sabemos que faleceu em paz.


Hoje em dia, quando me lembro de todos os episódios, noto que ainda tenho muito trabalho pela frente para não cair no erro de odiar a figura masculina.


Aliás, cheguei a ouvir a voz de Deus - um sussurro no meu interior - para não amaldiçoar o que Ele abençoou, num momento de raiva.


Agora, Deus abençoou a violência contra a mulher? Claro que não!



O que eu vejo que acontece nesta fase adulta, é a continuação de uma cura profunda para que eu possa desfrutar do real significado de um dia construir a minha família.


Pois, quando dou por mim tenho dificuldade em pedir ou esperar por ajuda. Aquilo que precisa ser feito, faço-o. Contudo, não posso deixar de admitir que já chorei muitas vezes a pensar o quanto um homem em casa faria a diferença.


Logo, eu jamais poderei colocar todos os homens no mesmo grupo. É injusto para com os que são justos e injusto para com Deus.

Então, o que mais aprendi sobre esse período da minha vida é que existe maldade no ser humano. Contudo, ele decide se a quer propagar ou não.


Como existem filhos que aprendem de pais maus, também existem filhos que aprendem de pais bons. E há ainda aqueles filhos que, mesmo tendo pais maus, escolhem quebrar o ciclo. Essa foi a escolha do meu tio que se recusou a ser igual ao pai.


Por isso não posso odiar os homens. Os motivos que me levam a não odiá-los são maiores do que os motivos que me fazem desconfiar deles.


Em primeiro lugar porque vejo que Deus os criou com um propósito, que nada se assemelha à violência que vi. Em segundo lugar, porque pelo exemplo de homens de família que tenho por perto eu tenho a certeza de que o propósito pelo qual foram criados é real e manifesta-se.


Vejo à minha volta, não famílias perfeitas, mas saudáveis. Onde há espaço para o acerto e para o erro que não fere brutalmente o outro. Vejo que há arrependimento e perdão. E um desejo enorme de continuar.


Assim, continuo a falar do que vi e do que ouvi. Continuo em busca da cura para a minha alma que foi mais ferida que o corpo. Continuo a deixar que Deus entre em cada compartimento dela para me mostrar o que precisa ser trabalhado e resolvido.


Sem odiar ninguém.







2 comentários

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07 de out. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Uma história que somente o Senhor pode curar. Somente quem viveu esta aflição tem autoridade para falar e alertar outras mulheres que vivem um relacionamento abusivo.

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amargaridablog
amargaridablog
16 de out. de 2025
Respondendo a

E não podemosficar sem falar sobre o assunto. Muito obrigada pelo seu comentário e vamos seguir a alertar mais mulheres.

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Comentários (29)

Elsa
02 de fev.

Maravilhosa narrativa.

Muito bom, minha flor linda.

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Adriana
30 de set. de 2025

Excelente como sempre!

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Fabiola
05 de ago. de 2025

Falar é uma das expressões e experiências mais incríveis que temos. Mas como falastes, precisamos cuidar com os nosso impulsos, esses podem levantar e podem destruir. Obrigada por essa reflexão.

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Convidado:
22 de out. de 2024

Vou dormir com o coração aquecido com esse texto ❤️

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Convidado:
27 de ago. de 2024

“… nos quer levar a nível de segurança tão grande onde vamos nos sentir livres para deixar toda a dor, todos cacos, nas suas mãos“ 🤯

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Convidado:
27 de ago. de 2024

A forma como abraçaste este viagem e te entregaste, e a coragem que demonstraste, é algo que me deixa sempre sem palavras.

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Convidado:
26 de out. de 2023

Gracias por llevarnos hasta allá! Hasta se me apretó la guata.

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amargaridablog
amargaridablog
Administrador
14 de nov. de 2023
Respondendo a

Hehe como nosotros decimos acá: Ora essa! :)

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Convidado:
18 de out. de 2023

Como amei ler seu texto e poder relembrar os detalhes dessa viagem tão intensa e incrível que fizemos. Obrigada ❤️😇

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amargaridablog
amargaridablog
Administrador
14 de nov. de 2023
Respondendo a

Seria bom voltar, né? Pode ser que um dia tenhamos boas notícias e seja possível voltar com tudo em paz :)

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Armando Marcos
Armando Marcos
18 de jul. de 2023

Muito bom seu texto, e compartilho sua dor pois tive um pai semelhante, e essa questão se estar sempre em alerta até hoje vem comigo

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Convidado:
18 de jul. de 2023

Wow! Que corazón enorme Dios te dió.

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amargaridablog
amargaridablog
Administrador
14 de nov. de 2023
Respondendo a

Sin ninguna duda! :) gracias por leer el texto.

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