É preciso pensar no fim
- amargaridablog

- 13 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
TUDO O QUE APRENDI COM "A MORTE DE IVAN ILITCH" DE TÓLSTOI
A morte é o assunto que mais evitamos. E, se pudéssemos, também evitávamos o seu acontecimento. Não apenas a nossa, mas a de quem mais amamos.
É um tema que pode nos assustar. Podemos fazer todos os esforços para não pensar sobre isso ou, então, acreditamos que é uma temática a ser reflectida quando já se tem a idade certa para se pensar no assunto.

Mas e se eu te disser que deveríamos pensar mais na morte?
Não de modo a temê-la, ainda que seja muito natural que isso aconteça - faz parte do nosso instinto de sobrevivência e está tudo bem -, mas para nos fazer repensar a forma como vivemos.
E sabes quem me ajudou a pensar mais sobre isso? Tólstoi!
Pois é! Quando li “A Morte de Ivan Ilitch” comecei a questionar-me muito sobre a maneira como a personagem principal (Ivan) tinha gasto os seus dias.
Felizmente, encontrei uma pessoa que partilhou do mesmo sentimento que eu: a Jess!
Jéssica Rangel é o seu nome e é uma mulher com um amor profundo pela literatura. Tanto que nos conhecemos por causa do podcast Entrelinhas.
Tornou-se fã do programa e eu tornei-me fã da forma como cultiva a vida literária. Inclusive, quando descobri que já tinha lido esta obra, não hesitei em convidá-la para o episódio (podes ouvir aqui).
Ao perguntar-lhe sobre o primeiro contacto com as obras de Tólstoi, Jess contava-me que tudo aconteceu quando era adolescente e ainda mencionou que gosta de reler alguns livros lidos na adolescência porque hoje considera ter uma mente mais madura.
Também não hesitou em comentar que esta obra (em específico) é uma boa forma de iniciar os clássicos russos. Por isso, aconselhado pela Jess e aprovado por mim, se queres iniciar a tua leitura com os clássicos russo, começa pel’A Morte de Ivan Ilitch.
Já no meu caso, li este livro algum tempo depois de Uma Confissão e confesso que, ainda que seja abordado o mesmo tema (a morte), a verdade é que encontrei muitas diferenças.

É o medo!
Neste livro vejo um homem que está prestes a chegar ao fim dos seus dias e sente que, afinal, não os viveu como deveria. Em Uma Confissão, é o próprio autor a colocar para fora a sua ânsia de querer deixar esta vida.
Talvez fosse ignorante da minha parte comparar as duas obras, tendo em conta que uma era ficção e outra um desabafo…, mas perguntei à minha convidada o que ela pensava sobre o que mais nos assustava quando pensávamos na morte.
Será porque temos medo de um acontecimento que nos é desconhecido? Afinal, quem conhecemos que passou por tal não voltou para contar como foi a experiência...
Ou será que o que nos dá medo é vermos a hora a chegar e percebermos que, no fim de tudo, não vivemos a vida plenamente? Talvez seja por isso que tantos idosos chegam a uma idade avançada cansados desta vida e com um aborrecimento indescritível...
A Jess não hesitou em responder que é o medo que nos impede de viver a vida que gostaríamos de viver. O medo do que as pessoas podem pensar a nosso respeito. Afinal de contas, todos usamos máscaras sociais o tempo todo - e essa é uma das hipocrisias sempre apresentada nas obras de Tólstoi.
Ainda acrescentou que, talvez não tenhamos as mesmas ambições de riqueza que são apontadas nos livros, mas poderemos ter outras que, no fim de tudo, apontam para o mesmo: fazer de tudo para que tenhamos um lugar de pertença.
Deste modo, quando lemos esta obra estamos diante de um homem que viveu sempre de aparências. A sua vida social deveria ser alcançada a todo custo pela idealização do que tinha ideia de ser perfeito… isso custou-lhe caro quando a realidade lhe bateu à porta.
E que realidade era? A vinda da morte. O final do espectáculo. O fechar do ciclo.

Propósito.
Por isso, continuei com as minhas as minhas perguntas: o que leva o ser humano a desejar o que é ideal (ainda que seja raso) a todo o custo?
O bom de conversar com a Jess é que a profundidade com que fala é proporcional ao tanto que aprende do que lê.
Assim, à pergunta anterior ela respondeu que “para termos ciência que a nossa vida é rasa precisamos aprender o que é uma vida profunda”.
Estamos a falar de uma personagem que, em nome de estatuto social e financeira, nem se preocupou em ser um marido ou pai presente. A mulher reclamava sem fim, talvez aborrecida por uma vida sem ser ouvida, e os filhos ausentes repercutindo o que receberam do pai.
A saída da zona de conforto para Ilitch foi o leito de morte, onde não tinha como escapar do tempo e da solidão necessária para reavaliar a forma como viveu.
A sua única relação profunda e verdadeira foi com o seu servo, um simples camponês que cuidou dele. Foi a partir de uma pessoa simples, que nada tinha a oferecer a não ser aquilo que tinha de precioso: presença.
Durante a leitura, é notório que Ivan relata, não apenas o sofrimento físico, mas o sofrimento psicológico. Ou seja, a sua solidão interna e externa - ainda que com pessoas à sua volta, mas que se queixavam que não o compreendiam.
Eu, sendo um pouco rabugenta, considero que o seu lamento pendia ao vitimismo. Afinal, foram as suas escolhas. O que Ivan considerava importante era fazer parte de um grupo forte social e financeiramente.
Porém, Jess trouxe uma reflexão sobre o que eu considerava ser um lamento vitimista: “Directa ou indirectamente, as escolhas foram dele e tudo o que se vê são as consequências de uma vida pautada pela aparência. Mas, se formos parar para pensar, ele não foi uma pessoa má, ele não fez nada… ele viveu uma vida morna, sem senso de propósito. Se não temos propósito, então não temos intencionalidade… então, o que sobra?”
E assim compreendi que Ivan foi uma vítima de si mesmo. Mas o seu lamento era sincero, pelo mal que causou a si e aos seus.

Como faz parte do meu trabalho, para além de ler os livros, costumo ler comentários e colectar opiniões de resenhas de outros leitores.
Cheguei a ler alguns comentários acerca do mesmo. Por exemplo, o escritor António Lobo Antunes escreveu: “Este livro tão breve, uma das maiores obras-primas do espírito humano, tem sido, desde a sua publicação, um motivo de controvérsia para a crítica: trata-se de uma obra sobre a morte ou de uma obra que nega a morte?”
E também li no reddit: “um livro para morrer… em vida.”
Já a Jess afirmou que é um livro para entender o que faz a vida valer apena. Não quis ir a fundo pela perspectiva cristã - que ambas partilhamos -, mas esclareceu o seu ponto mostrando como a finitude é necessária.
Já o meu veredicto é que se trata de um livro onde me deu receio de despertar para a realidade quando a minha vida já estiver no seu final.
Pode ser que ainda vá a tempo? Sim! Mas e o tempo que passou?
Essa ideia assusta-me!

No fim de tudo, consegue-se perceber que se tornou um homem muito consciente do mundo que criou para si e que era bastante fútil. E a ideia do “tarde demais” quase me fez ter a ideia de que tudo estava perdido.
A minha convidada (mais uma vez) tornou a acalmar-me - será que ela se apercebeu da minha inquietação?
Jess afirmou que “vale mais perceber o quanto se viveu erradamente prestes a dar o último suspiro do que nunca ter essa consciência”.
Já eu… não tenho uma resposta clara a dar sobre o assunto. Pois o tempo que passou assusta-me mais do que ver o fim aproximar-se.
Mas essa consciência, mesmo que no final, não seria um acto de misericórdia do Criador?






Maravilhosa narrativa.
Muito bom, minha flor linda.
Excelente como sempre!
Falar é uma das expressões e experiências mais incríveis que temos. Mas como falastes, precisamos cuidar com os nosso impulsos, esses podem levantar e podem destruir. Obrigada por essa reflexão.
Vou dormir com o coração aquecido com esse texto ❤️
“… nos quer levar a nível de segurança tão grande onde vamos nos sentir livres para deixar toda a dor, todos cacos, nas suas mãos“ 🤯
A forma como abraçaste este viagem e te entregaste, e a coragem que demonstraste, é algo que me deixa sempre sem palavras.
Gracias por llevarnos hasta allá! Hasta se me apretó la guata.
Como amei ler seu texto e poder relembrar os detalhes dessa viagem tão intensa e incrível que fizemos. Obrigada ❤️😇
Muito bom seu texto, e compartilho sua dor pois tive um pai semelhante, e essa questão se estar sempre em alerta até hoje vem comigo
Wow! Que corazón enorme Dios te dió.